Nem Flores, Nem Silêncio Covarde: Pelo Direito de Pulsar e Vencer a Barbárie Feminicida

Por Estefanie Silva

9 mar 2026, 10:48 Tempo de leitura: 4 minutos, 9 segundos
Nem Flores, Nem Silêncio Covarde: Pelo Direito de Pulsar e Vencer a Barbárie Feminicida

Por Estefanie Silva

O mês de março costuma ser inundado por uma estética de celebração que nos sufoca. Entre postagens em tons de rosa e homenagens vazias, o Estado e a sociedade — que muitas vezes se calam diante de tantos episódios reais de terror — insistem em erguer uma cortina de fumaça sobre o rastro de sangue deixado pelo caminho. Para nós, mulheres, a conta é simples e cruel: não existe conquista de direitos sem o direito elementar de permanecer viva.


Não aceitaremos o simbolismo barato de gestores e juristas que nos aplaudem no dia 8 de março, mas se acovardam em omissão e silêncio durante o resto do ano. É inadmissível que, em dias atuais, dizer “não” ainda seja uma sentença de morte. Recusamos ser reduzidas a estatísticas de “crimes passionais”; somos, na verdade, alvos de uma estrutura que normaliza o horror da barbárie feminicida e desumaniza nossos corpos. Essa prática não é um acidente e possui cúmplices de toga. Denunciamos a face mais perversa do Estado: juízes que ousam afirmar que um estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos “não tem urgência temporal” para a prisão dos culpados. Mas, o que é urgente para o Judiciário brasileiro, se não a vida de uma jovem violada? Não basta o trauma causado por agressores; somos violadas novamente pelas instituições que deveriam nos proteger e acolher. Exigimos a responsabilização por essa omissão criminosa. O Judiciário não pode ser o Poder onde a impunidade ganha legitimidade. E assim, reafirmamos o óbvio: a culpa nunca será da vítima. Por uma institucionalidade que tenha sensibilidade e cuidado, e não tribunais que nos sentenciam covardemente em naturalizar o silêncio diante da violação dos nossos corpos.


A mudança real não virá apenas de sentenças, mas de um compromisso efetivo com o Pacto Nacional Contra o Feminicídio. É dever do Estado e da sociedade educar desde a base para que meninos não se tornem nossos
algozes. Precisamos de uma educação que ensine sobre respeito, que desconstrua a masculinidade tóxica e proteja as mulheres desde a infância. Além disso, a misoginia organizada, alimentada por movimentos como o”redpill” nas redes sociais, é a munição que arma mais ainda o agressor no mundo real. É urgente a regulamentação das redes e a criminalização desses discursos de ódio contra todas as mulheres.


Como mulher preta, cria da favela, sabemos que a violência não escolhe CEP, mas que tem, em sua maioria, endereço certo. Nós mulheres negras somos, historicamente e estatisticamente, as maiores vítimas. Dados comprovam que 62,6% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras. A interseccionalidade: quando diferentes fatores de exclusão como (raça, classe
social, orientação sexual e território) se cruzam, a vulnerabilidade da mulher aumenta drasticamente. Consequências do racismo estrutural que atinge com mais força os corpos de mulheres negras, indígenas, quilombolas e LBTQIA+, fator que alimenta drasticamente a violência agravada pela ausência do Estado que se omite enquanto sangramos pelo chão e normaliza esse “filme de terror” chamado feminicídio, cujo próximo capítulo tende a ser sempre mais drástico que o anterior.

E então a pergunta permanece ecoando: até quando vamos assistir a essa barbárie e continuar a virar estática? O que temos, de fato, a comemorar? Para que haja celebração, é preciso estarmos vivas. E vivendo bem. Afinal, de que adianta viver sem moradia digna para nós e nossos filhos e filhas ou apenas sobreviver sem poder desfrutar o tempo com as nossas pessoas por estarmos presas a um sistema de trabalho que nos obriga a uma escala onde temos apenas um dia de “descanso”? Estamos aqui também para pautar o bem-viver, principalmente das mulheres negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, das mulheres LBTQIA+, das sem-teto, das mães-solo, das com deficiência, das egressas, das mães atípicas e de todas aquelas que são tratadas como se estivessem à margem da sociedade.

Resta-nos fortalecer as redes de apoio e nossos movimentos de mulheres para que tenhamos ânimo e força para continuarmos de mãos dadas, fortalecendo mais ainda um movimento solidário que o patriarcado jamais será capaz de destruir.

Queremos estar vivas e ser livres nos lares, no trabalho e na política! Queremos o bem-viver para nós e para a nossa família, independentemente de como seja constituída. Nossas ancestrais abriram caminhos para que hoje tenhamos ousadia, coragem e resiliência para enfrentar esse sistema que nos invisibiliza e mata. Somos raízes profundas que nenhum machismo poderá
cortar. Pelas que vieram, pelas que estão e pelas que virão: nem um passo atrás! Seguiremos em marcha.

PAREM DE NOS MATAR! É POR TODAS AS MULHERES!