Feminismo Popular : A Força Radical Capaz de Derrotar a Extrema Direita no Brasil
Por: Marina Campos, Tárzia Medeiros, María da Consolação e Vanda Souto
31 mar 2026, 13:52 Tempo de leitura: 8 minutos, 6 segundos
Esse ano completamos 20 anos da ocupação da Ara Cruz Celulose pelas mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ( MST) , Via Campesina e Marcha Mundial das Mulheres, marco na radicalização da luta das mulheres em nosso país e vários países da América Latina. As mulheres destruíram as mudas de eucalipto da Ara Cruz Celulose, com o Lema “Não ao Deserto Verde”, por conta das grandes plantações de monoculturas de eucalipto empresa multinacional que impactou vários territórios indígenas e povos tradicionais, secou água de muitas comunidades com exploração dos bens comuns da natureza para garantia de lucro e mais lucro.
Essa foi uma ação direta radicalizada que além de combater o inimigo direto do capital, os bilionários e as grandes empresas e multinacionais do agro, hidro e minério negócio, foi fundamental para as mulheres garantirem o avanço do feminismo dentro de suas organizações políticas, agregou mais mulheres à luta, ampliando a participação. Podemos dizer que despertou em mais mulheres o sentido e o pertencimento da luta nos parâmetros de uma conquista coletiva que se deu pelo protagonismo das mulheres.
A potência da luta das mulheres passa a ser vista de um outro lugar dentro de suas próprias organizações, garantem um espaço gigantesco do feminismo no programa político com centralidade na construção do socialismo e da reforma agrária popular. Destacando um caráter antipatriarcal, antirracista e agroecológico¹ de construção da reforma agrária popular.
A radicalidade da luta feminista popular da qual tratamos aqui, traz a contradição do sistema capitalista no conflito capital x vida. Os corpos, territórios e seres que são descartáveis, aniquiláveis serão destruídos para garantir mais acumulação de lucro pelos donos do capital.
Por isso, o feminismo popular afirma a economia feminista em sua luta contra o patriarcado, o racismo e o capitalismo, pois ela apresenta uma alternativa pela via da sustentabilidade da vida evidenciando a nossa ecodependência e a urgência de não permitirmos que o imperialismo colapse o clima e extinga todas as formas de vida na Terra.
Uma sustentabilidade da vida que garanta a socialização do trabalho domésticos e de cuidados da vida e da natureza, o trabalho produtivo e reprodutivo com o Estado e os homens, que combata o machismo e a misoginia, que exija o fim das guerras e a desmilitarização dos territórios, uma alternativa que é capaz de por fim ao femincídio e todas as formas de violência contra as mulheres e povos explorados e oprimidos do mundo.
O que podemos aprender com a radicalidade da Luta Feminista Popular depois de 20 anos desse marco?
Em meio um cenário de guerras e conflitos mundiais muito intensos, demos continuidade às lutas em 2026 com muitos desafios e urgência para barrar o crescimento da extrema direita e do fascismo no mundo.
As mulheres na construção feminista seguem apostando na radicalidade, na defesa da autodeterminação dos povos e da soberania em seus territórios e avançando cada vez mais na unidade das lutas. Essa Unidade no Brasil se materializou com o Manifesto Nacional que convocou de forma unitária a nossa ocupação das ruas e terras no 8 de março, dia Internacional das Mulheres, sem abrir mão de todas as pautas centrais, dentre elas a Luta contra o Feminicídio e a Descriminalização e Legalização do Aborto, além da solidariedade internacionalista com Cuba, Venezuela, Palestina brutalmente atacadas por Donald Trump e Netanyahu.
Outra convocatória a nível internacional que agregou centenas de organizações pelo mundo, ressaltando o caráter internacionalista das lutas feministas foi a convocatória da IV Internacional, com o lema: “ Mulheres Vivas, na Luta Contra a Extrema Direita”.
Essa unidade tem também, como exemplo recente o protagonismo das mulheres na luta contra o decreto do governo Lula que autorizava a Cargill, multinacional do agronegócio a se apropriar/privatizar de rio o Tapajós. Uma luta vitoriosa com grande protagonismo da radicalidade das mulheres indígenas em defesa de seus territórios.
Como agora estão fazendo o Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu (MMIMX), uma luta contra a empresa canadense Belo Sun e seu projeto de mineração previsto para a Volta Grande do rio Xingu, representando risco direto aos territórios, às águas e ao modo de vida das comunidades. O movimento exige a anulação do licenciamento ambiental do projeto e pede a garantia ao direito à consulta prévia, livre e informada, respaldadas na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Podemos destacar a ocupação dos trilhos de trem das mineradoras por mais de mil (1.000) mulheres da via campesina, do MST em sua jornada de luta de março na região sudeste, em uma ofensiva direta em um dos maiores problemas ambientais do mundo que são os crimes da mineração predatória. Paralisaram os trens da Samarco e o Lema foi: “ Sem Anistia aos crimes da mineração”.
Ainda em março, as mulheres do Movimento Olga Benário, realizaram mais de 15 ocupações em imóveis “abandonados”/sem função social, em vários Estados para transformá-los em Casas de Referência, oferecendo acolhimento a mulheres vítimas de violência e promovendo formação política.
Março acaba e o mês de Abril chega trazendo o acampamento Terra Livre (movimento indígena), com protagonismo das mulheres indígenas afirmando seu ecofeminismo, exigindo demarcação já, dentre muitas outras lutas por exemplo, o povo Anacé no Ceará contra a construção do Data Center da Tik Tok que ameaça o acesso a água na região de Caucaia. Lutas contra as chuvas de agrotóxicos, contra energias renováveis predatórias tomam todo o nordeste com o protagonismo das mulheres, negras, indígenas e quilombolas, do campo, da cidade das águas e das florestas.
Teremos o Abril Vermelho com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (movimento campesino), exigindo justiça para o massacre de Eldorado Carajás que completa 30 anos de impunidade e seguiremos com o feminismo popular presente como a foice, enxada, com o lápis e todas ferramentas necessárias para garantir a defesa dos territórios.
As Mudas romperam o silêncio
Havia um silêncio sepulcral sobre 18 mil hectares roubados dos povos tupi-guarani
Sobre 10 mil famílias quilombolas expulsas de seus territórios
Sobre milhões de litros e herbicidas derramados nas plantações
Havia um silêncio promíscuo sobre o cloro utilizado no branqueamento do papel a produzir toxinas cancerígenas que agridem plantas, bichos e gente.
Sobre o desaparecimento de mais de 400 espécies de aves e 40 de mamíferos no norte do Espírito Santo
Havia um silêncio intransponível, sobre a natureza de uma planta que consome 30 litros de água/dia que não dá flores e nem sementes
Sobre uma plantação que produzia bilhões e mais bilhões para apenas uma meia dúzia de senhores
Havia uns silêncios espesso sobre milhares de hectares acumulados no ES, MG, BA e RS
Havia um silêncio cúmplice sobre a destruição da mata atlântica e dos pampas pelo cultivo homogêneo de uma só árvore, o eucalipto
Havia um silêncio pagado sobre a volúpia do lucro
Sim, havia um silêncio global sobre os capitais suecos, sobre as empresas norueguesas, sobre a grande banca nacional,
Por fim havia um imenso deserto verde em concerto com o silêncio
De repente milhares de mulheres se juntaram e destruíram mudas a opressão e a mentira
As mudas gritaram de repente e não mais que de repente o riso da burguesia fez se escândalo tornou-se esgar desconcerto
A ordem levantou-se incrédula, clamando progresso e ciência imprecando em termos chulos obscenidades e calão
Jornais, rádios, revistas, a internet, a TV, as empresas anunciantes, executivos bem-falantes, assessores rastejantes, técnicos bem pensantes, os governos vacilantes a direita vociferante e todos os extremistas de sempre, fizeram coro, eco comissão e declarações “Defendo o Capital”
Eles não podem romper o Silêncio e clamaram por degola
De Repente e não mais que de repente milhares de mulheres destruíram o silencio, naquele dia nas terras ditas da Aracruz
Foram o nosso gesto
Foram a nossa fala!. (ROMPENDO, 2015 ).
https://www.youtube.com/watch?v=VNpAm_SMxxg&t=209s
1 No Brasil, afirmamos que a agroecologia é ciência, prática e movimento, embora haja ainda distintas acepções conceituais, especialmente no campo acadêmico, também refletidas na prática das organizações. As mulheres têm apontado outros sentidos políticos para o conceito de agroecologia. O Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (GT Mulheres da ANA) tem sido o palco para a confluência de lutas, perspectivas políticas e ações práticas entre as mulheres organizadas em seus movimentos, e um espaço importante para as conexões entre economia feminista e agroecologia. Para o GT Mulheres da ANA, a agroecologia deve ser compreendida como um projeto de vida, que busca transformar nossa relação com a natureza, mas também as relações entre as pessoas, com base nos princípios da igualdade, da solidariedade e da justiça: “[…] a agroecologia não é só prática, mas o jeito como o trabalho se organiza, como as pessoas se relacionam entre si e com o ambiente” (ANA, 2018, n.p.). Por esse motivo, afirmam que a agroecologia é necessariamente feminista, anticapitalista, antirracista e antiLGBTfóbica (ISLA et al., 2020).